março 21, 2004

Avenida da Igreja-Lisboa

Na avª da igreja , em alvalade , já ninguem se recorda do senhor azeitona , dos seus olhos doces , dos seus movimentos que foram ficando mais lentos com o passar dos anos , nem se lembram da papelaria de que ele era dono e que já não existe , para no seu lugar estar uma horrenda pastelaria com uma esplanada de aluminio que invande o passeio de um modo agressivo.
Os meus filhos já não sabem quem é ou quem foi o senhor azeitona , e no entanto , ele era uma pessoa importante aqui no bairo ; era lá que se vendiam os valores selados , se faziam anuncios no diario de noticias , "vou ali ao Azeitona deitar um anuncio " .
Foi ele o primeiro a ter uma maquina de fotocopias , enorme e barulhenta que proporcionou vários passeios para ir ver , maravilhados , o papel chamuscado que saia , após um ruidoso estrondo , por uma fisguinha onde os nossos olhos infantis se colavam , cheios de expectativa , sempre celebrada com um coro de risadas , sob o olhar satisfeito do senhor azeitona.
Na montra todos os anos se sucediam os narizes de papelão , com bigodes e aros de oculos feitos de arame preto , em mistura com porcarias de cócós de papelão , mais as repelentes aranhas , cobras e dentes de drácula , numa misturada de papelinhos e serpentinas , mais os frasquinhos de maus cheiros , origem de risadas só de os ver ali descaradamente expostos.
Uns meses depois a montra era cheia de balões do santo antónio , em papel frisado colorido , de foguetes e caixas de fosforos mágicos para iluminar das varandas as noites de junho em lisboa.
Eram , no verão as boias que com as barbatanas de "tubarão" se espalhavam , numa montra cheia de areia , misturadas com os baldes e as formas com forma de castelos.
Vinha o natal e os balões de vidro frageis e brilhantes , as pequenas figuras de barro para o presépio , estas , sempre cuidadosamente envoltas em serraduda para não quebrarem !
Era ali naquela montra que começavam as aulas , com as pastas a cheirar a cabedal novo , os lápis todos novos e arrumadinhos nas caixas ao lado daquele luxo supremo das borrachas para tina e para carvão.....Sem esqueçer os mata-borões e os tinteiros.
Eu era miuda e o srº azeitona , nessa altura devia ter uns trinta e poucos , tinha uma loja nova num bairo novo , devia ter muitos sonhos e ambições , que nunca saberemos se concretizou.
Sabemos sim , que já não há lugar para ver todas aquelas maravilhas , nem as estações do ano se sucedem já em nenhuma montra e que na actual avenida da igreja já ninguem se recorda do senhor azeitona!!

E pronto , perdoem , a primavera tem destas coisas , põem-nos um bocadinho nostalgicos.....Sabe-se lá porquê?

Publicado por annie hall em março 21, 2004 03:54 PM
Comentários

Ele há coincidências engraçadas. Há coisa de um ano falou-se em ser comprada uma antiga papelaria na Av. da Igreja que corresponde exactamente à sua descrição, onde iria funcionar uma empresa da qual eu seria sócio. O projecto abortou por razões que não vêm ao caso. Mas que há coicidências engraçadas, há. Gostava de ter ido ver a papelaria na altura em que isso andou a ser falado. Nunca fui. Tenho pena. Devia ser de facto um lugar daqueles únicos.

Afixado por: Paulo em março 21, 2004 04:16 PM

A nostalgia é importante para recomeçar. Não há novos ciclos sem os antigos. E o que é a Primavera senão um recomeçar de um novo ciclo?

Afixado por: Rosário Dias Diogo em março 21, 2004 08:33 PM

Não conheci o sr. Azeitona mas existem outras lojas de que me recordo bem. Uma delas é a livraria onde se encontra agora a Carcassone.

:)

Afixado por: André em março 22, 2004 04:33 PM

Seria a Havaneza de Alvalade, Annie?
Um abraço.

Afixado por: LE. em junho 19, 2004 02:13 PM