março 22, 2004

Famílias sem apelido


Os olhos bem abertos e fixos nos rostos de quem com ela falava , as mãos apertadas sob o peito , num gesto de desespero contido , o tronco ligeiramente inclinado para a frente , como se fosse para ouvir melhor , não lhe escapar nada do que ia ouvindo , de toda aquela explicação que lhe era dada .
Sabia que não entendia quase nada do que diziam , tinha consciência disso , mas ouvia as palavras todas na mesma .
Afinal todas elas apenas queriam dizer " não há mais nada a fazer " , ou de um modo mais cru " o seu filho vai morrer ".
Ouviu tudo e foi sentar-se ao lado da camita de ferro .
Todos os que passavam , lhe dirigiam um olhar meigo , lhe faziam um afago , paravam junto da cama de grades e em silêncio faziam companhia .
Estavam presentes

Ela debruçou-se sobre o berço do filho , aconchegou-o no colo e sentada na cadeira ninou-lhe uma cantiga de cabo verde.
Baixo , baixinho , cheia de palavras e sons redondos como o seu colo , como os seus olhos que conversavam com os do filho.
E assim ficaram ninando , olhando um para o outro , até que o menino adormeceu e ficou frio.
Foi então que ela olhou em roda , para todos os que estavam ao pé , todos com olhos cheios de lágrimas redondas de emoção e num gesto que a todos abrangia disse :
" O meu menino já morreu , esteve sempre com familia."

Há assim familias sem apelido , familias fugazes que duram apenas o tempo de uns turnos , mas que ficam para SEMPRE .

Publicado por annie hall em março 22, 2004 07:23 PM
Comentários

E que ficam imortalizadas em textos bonitos como este.

Afixado por: Rosário Dias Diogo em março 23, 2004 12:15 AM
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