" No nevoeiro leve da manhã de meia-primavera , a Baixa desperta entropecida e o sol nasce como que lento. Há uma alegria sossegada no ar com metade de frio , e a vida , ao sopro leve da brisa que não há , tirita vagamente do frio que já passou , pela lembrança do frio mais que pelo frio , pela comparação com o verão proximo , mais que pelo tempo que está fazendo.
Não abriram ainda as lojas , salvo as leitarias e os cafés , mas o repouso não é de torpor , como o de domingo; é de repouso apenas. Um vestigio louro antecede-se no ar que se revela , e o azul córa palidamente através da bruma que se esfina. O começo do movimento rareia pelas ruas , destaca-se a separação dos peões , e nas poucas janelas abertas , altas , madrugam tambem aparecimentos. Os electricos traçam a meio-ar o seu vinco amarelo e numerado. E , de minuto a minuto , sensivelmente , as ruas desdesertam-se."
L. do D.
por
BERNARDO SOARES