Vidas simples
Chegou cedo, como de costume , carregando sacos e cestos cheios de tachos e panelas.
Forte e desengonçada , exibe um cabelo fraquito com uma permanente que já ninguem usa.
Mas fica-lhe bem , tudo , o ser forte , desengonçada e até o cabelo com permanente.
Tem olhos de azul cinzento , pequenos , brilhantes e marotos ,que desmentem o rol de doenças e maleitas de que afirma padecer.Nada está bem naquele corpito , desde os diabetes que sobem , às veias que incham , passando pelas picadas no coração.
Os desaranjos gerais são minuciosamente descritos em ar de laracha ,enquanto esvazia os cestos.
Já não se sabe se sofre de todas aquelas mazelas ou se apenas se diverte a falar nelas para nos embalar naquele palavrar cantarolado.
Do canto da cozinha , vendo-a tapar e destapar tachos , sentimos que haverá sempre um lugar seguro no mundo ,enquanto ela existir.
Aquela simplicidade desarmante da Manuela faz falta ao equilibrio de qualquer pessoa.
Quando ela está por perto , a importância do ponto das compotas ou a qualidade do feijão , supera qualquer outro assunto.
Ficamos quentinhos e aconchegados a provar fatias fininhas de presunto , uns bocaditos de requeijão , lasquinhas de marmelada e uma serena paz paira no ar.
Cada colherada de sopa de feijão com couve, espalha por todo o corpo um bem estar despreocupado e vamos caindo num torpor tonto e agradavel onde uma unica preocupação consegue sobreviver:- será que vieram os pastelinhos de bacalhau?
Pois é , continuamos esperando uma primavera que não quer vir!
Uma semana depois ,mesmo com o frio tão pouco primaveril , o Platano lá vai crescendo. Prepara-se para o verão.
Não consigo fazer o link com a foto anterior ,ficava bem ,mas acabo por aceitar que é muita tecnica para mim!Por isso é só descer a pagina e já está.
" I can resist everything
except temptation"
Oscar Wilde

Para todos um fim de semana cor de rosa
O Benjamim é excesivo em tudo o que faz.
É excessivo no modo como vive.
Foi excessivo no modo como entrou na vida dos donos.
Recebe-os com um excesso de festas , pulos , piroetas e alguns latidos ,que são o seu modo de dizer que está contente.
Digamos que ele tem , e usa , a linguagem verbal e com receio que não o entendam , junta doses excessiva de linguagem corporal.
É excessivo quando corre , voa.
Está sempre atrás de todas as portas da rua , há espera que se abram , e de todas ao mesmo tempo.
Está sempre com as patorras nos parapeitos de todas as janelas , sempre naquele exacto momento quando se abrem , e de todas ao mesmo tempo.
É excessivo nos ciumes que tem dos pachorentos ladradores.
É excessivo na proteção com que rodeia o pequenino Chopin , um yorkshire minusculo , que ele acha que está seguro e protegido dentro da sua imensa bocara.
É excessivo em tudo , até no olhar inteligente e meigo com que fotografa a dona a cada instante , sem distrações nem descanço.
A dona vive vigiada , seguida e perfeitamente anexada pela excessiva presença do Benjamim.
No entanto ele esteve fora oito dias e a casa e a vida ficou excessivamente vazia.
"Ah a frescura na face de não cumprir um dever !
Faltar é positivamente estar no campo !"
e
" Sou livre , contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu , e mergulho na agua da minha imaginação."
Deve ser tão bom ser Fernando Pessoa e poder dizer estas coisas todas ,sem ninguem lhe torcer o nariz....:)
Alguem me explica ,muito bem explicadinho ,porque é que a Libia e a Inglaterra agora estão tão amigas?
Estou danadinha para perceber!
Esta manhã os meus melhores amigos,os meus câes , fizeram uma citação de Alvaro de Campos
"Minha madrugada perdida,
meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso"
É assim , fora de contexto do poeta , é verdade , mas eles lá fizeram esta observação quando me deram os bons dias.!:)
Quando ontem ,uma vez mais , um ministro Inglês , veio afirmar que um ataque em Londres não era uma questão de "se" mas apenas de "quando",conclui que vivemos harmoniosamente com os terroristas.
A civilização ocidental tem esta caracteristica espantosa de absorver situações que lhe são estranhas , adaptar -se rapidamente e continuar a viver.
Sendo assim , já estamos conformados com a facto de que terroristas ( que espantosamente , muitos esquecem que são assassinos á solta ) , fazem parte da sociedade , irão fazer os seus trabalhinhos aqui ou acolá , nós iremos ficar "chocados" por uns instantes , vamos enterrar os mortos , ouviremos e leremos uma série de comemtarios onde se explicará que eles ( os turras ) coitados até têm as suas razões....!!!!! e vamos continuar em frente.
Basta ir a NY ,e , se não olhar dentro dos olhos dos seus habitantes , quase não se encontra sinal do atentado . Apenas uma enorme azafama de obras para tudo voltar ao que era. Que ilusão !
Em Madrid , se lá formos agora , bem se poderá procurar sinais visiveis da barbaride. Não se encontram .Tudo limpinho.
Nova York , aquela cidade que a europa fez na america , como se de uma porta de entrada familiar necessitasse para nos receber , foi atacada.
Aqui na europa ficamos muito emocionados ( alguns nem tanto ) .
Mas foi lá longe. Naquela cidade indefinida que é quase mais uma "ideia "para muitos , do que uma realidade.
Mas agora foi aqui em madrid , tão perto , tão na europa! E há uma ameaça , quase certeza de que londres vai pelos ares mais dia menos dia!
E o que vamos fazer-----reagir?
------dar cabo deles ?
------impedir que nos matem ?
Não , estamos á espera.
Já nos habituamos com a ideia.
Somos fatalistas. Não reagimos. a europa , a civilização ocidental está velha ,como aqueles velhos que desistiram e ficam sentados esperando que a morte venha .
Que deprimente!
Uma morte nunca é motivo de festejo, por isso não é disso que se trata aqui,de festejar. Não gosto da dictomia simplista que divide os homens em bons e maus.
Mas ,às vezes , dá mesmo vontade de se ser assim , um pouco linear , e registar que hoje um homem mau morreu.
Os olhos bem abertos e fixos nos rostos de quem com ela falava , as mãos apertadas sob o peito , num gesto de desespero contido , o tronco ligeiramente inclinado para a frente , como se fosse para ouvir melhor , não lhe escapar nada do que ia ouvindo , de toda aquela explicação que lhe era dada .
Sabia que não entendia quase nada do que diziam , tinha consciência disso , mas ouvia as palavras todas na mesma .
Afinal todas elas apenas queriam dizer " não há mais nada a fazer " , ou de um modo mais cru " o seu filho vai morrer ".
Ouviu tudo e foi sentar-se ao lado da camita de ferro .
Todos os que passavam , lhe dirigiam um olhar meigo , lhe faziam um afago , paravam junto da cama de grades e em silêncio faziam companhia .
Estavam presentes
Ela debruçou-se sobre o berço do filho , aconchegou-o no colo e sentada na cadeira ninou-lhe uma cantiga de cabo verde.
Baixo , baixinho , cheia de palavras e sons redondos como o seu colo , como os seus olhos que conversavam com os do filho.
E assim ficaram ninando , olhando um para o outro , até que o menino adormeceu e ficou frio.
Foi então que ela olhou em roda , para todos os que estavam ao pé , todos com olhos cheios de lágrimas redondas de emoção e num gesto que a todos abrangia disse :
" O meu menino já morreu , esteve sempre com familia."
Há assim familias sem apelido , familias fugazes que duram apenas o tempo de uns turnos , mas que ficam para SEMPRE .
Que bom se na semana que vai começar , tudo fossem boas maneiras !
Temos muito a aprender com os nossos melhores amigos.
Na avª da igreja , em alvalade , já ninguem se recorda do senhor azeitona , dos seus olhos doces , dos seus movimentos que foram ficando mais lentos com o passar dos anos , nem se lembram da papelaria de que ele era dono e que já não existe , para no seu lugar estar uma horrenda pastelaria com uma esplanada de aluminio que invande o passeio de um modo agressivo.
Os meus filhos já não sabem quem é ou quem foi o senhor azeitona , e no entanto , ele era uma pessoa importante aqui no bairo ; era lá que se vendiam os valores selados , se faziam anuncios no diario de noticias , "vou ali ao Azeitona deitar um anuncio " .
Foi ele o primeiro a ter uma maquina de fotocopias , enorme e barulhenta que proporcionou vários passeios para ir ver , maravilhados , o papel chamuscado que saia , após um ruidoso estrondo , por uma fisguinha onde os nossos olhos infantis se colavam , cheios de expectativa , sempre celebrada com um coro de risadas , sob o olhar satisfeito do senhor azeitona.
Na montra todos os anos se sucediam os narizes de papelão , com bigodes e aros de oculos feitos de arame preto , em mistura com porcarias de cócós de papelão , mais as repelentes aranhas , cobras e dentes de drácula , numa misturada de papelinhos e serpentinas , mais os frasquinhos de maus cheiros , origem de risadas só de os ver ali descaradamente expostos.
Uns meses depois a montra era cheia de balões do santo antónio , em papel frisado colorido , de foguetes e caixas de fosforos mágicos para iluminar das varandas as noites de junho em lisboa.
Eram , no verão as boias que com as barbatanas de "tubarão" se espalhavam , numa montra cheia de areia , misturadas com os baldes e as formas com forma de castelos.
Vinha o natal e os balões de vidro frageis e brilhantes , as pequenas figuras de barro para o presépio , estas , sempre cuidadosamente envoltas em serraduda para não quebrarem !
Era ali naquela montra que começavam as aulas , com as pastas a cheirar a cabedal novo , os lápis todos novos e arrumadinhos nas caixas ao lado daquele luxo supremo das borrachas para tina e para carvão.....Sem esqueçer os mata-borões e os tinteiros.
Eu era miuda e o srº azeitona , nessa altura devia ter uns trinta e poucos , tinha uma loja nova num bairo novo , devia ter muitos sonhos e ambições , que nunca saberemos se concretizou.
Sabemos sim , que já não há lugar para ver todas aquelas maravilhas , nem as estações do ano se sucedem já em nenhuma montra e que na actual avenida da igreja já ninguem se recorda do senhor azeitona!!
E pronto , perdoem , a primavera tem destas coisas , põem-nos um bocadinho nostalgicos.....Sabe-se lá porquê?
Parece que só com a 2ª tentativa consegui mandar o platano e a sua promessa de sombra.....!
E se ontem aqui mostrei uma rosa, emblema glorioso e perfeito da primavera , hoje aqui está a promessa de sombra .
Um platano é uma benção de sombra nas tardes quentes de verão !
Esta foto é dedicada especialmente ao autor do observador , um dedicado
"observador" da natureza.
Consegui finalmente enviar uma imagem !
Não foi facil ,mas valeu a pena .
Uma rosa , a primeira deste ano ,para alegrar a primavera a todos.
Comparem esta imagem com um qualquer debate politico e confessem:
"Não há comparação possivel"
Quando se chega a esta altura do mês , a meio , a frase de Woody Allen
"O dinheiro é preferível
à pobreza apenas
por quetões financeiras"
não me sai da cabeça !
Hoje fiz algo que não é habito , vi um jornal televisivo e não gostei.
Vi guerras , atentados, desempregados e muita gente aflita com um
futuro que de futuro só tem o nome .
Vi carências sociais expostas no ecrãn colorido com um certo ar de festa .
Vi ministros contentes e um parlamento cheio de sorrisos e brilhantina.
Vi e não gostei .
Senti que não podia fazer nada para mudar.
Senti-me impotente e não gostei.
Lembrei Alvaro de Campos
"Arre , a humanidade é uma coisa muito complexa...."
"Arre , estou farto de semi- deuses!
Onde é que há gente no mundo?"
" Pensado para provocar
emoções fortes
ao almoço, ao jantar,
ou simplesmente
naqueles desejados
momentos de PAUSA"
È assim que um bom marketing pode tornar agradavel,mesmo os locais mais inesperados,como por exemplo a cafetarie de um hospital,onde,por uns instantes,mesmo que mtº breves,quem ali recorre "esquece"(trabalho-preocupações)e fica concentrado no imenso prazer fisico de comer uma boa sopa.Simplesmente Genial!
"
Hoje quero começar o dia com uma citação de Albert Camus,talvez se utilizada na pratica venha a suavizar um longo dia de arduo trabalho.Aqui vai"Charm is a way of getting the answer yes without asking a clear question"
Será com esta frase como mote que tentarei gerir o outsider.